‘Antes da Meia-Noite’: e o cinema como exercício da anti-idealização

O amor tem sido representado no cinema através das décadas em suas mais variadas formas. Da aventura clássica, muda, experimental ou contemporânea, a cinematografia tem se inspirado em diferentes vertentes e histórias nessa construção de linha afetiva transposta para a tela. E seguindo parte dessa linha criativa foi que, em 2013, o diretor americano Richard Linklater concluiu com “Antes da Meia-Noite” sua trilogia iniciada 19 anos atrás com “Antes do Amanhecer” (1995).

O longa narra a última parte da história de Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy), 19 anos depois do primeiro encontro em um metrô de Vienna. Agora, o casal está na Grécia em férias com as duas filhas e Hank (Seamus Davey), filho do primeiro casamento de Jesse. Mais experientes, esses dois personagens retornam na conclusão dessa que é uma das mais singulares histórias de amor do cinema.

Sua singularidade vem do modo como Linklater estruturou o filme. Ao todo, ele divide a estória em sete esquetes correspondentes ao curso de um dia inteiro. Acompanhamos os personagens da manhã até o fim da noite. O diretor, no entanto, abre mão de recursos mais tradicionais, como cartelas, e investe no uso da montagem a partir do recorte “capitular” ali estabelecido.

E esse é um dos principais pontos que estabelecem as marcas da cinematografia de Linklater. Primeiramente, dessa narrativa que segue fluidamente velando a presença do corte e a alternância dos planos.  E da característica prosódica do filme, atestada pelo protagonismo que a fala e o diálogo assumem na tessitura do objeto fílmico.

É claro que, somada a essa vertente, temos a forte presença da atuação de cada um desses personagens. E, aqui, Jesse e Céline não estão mais a sós, a exemplo dos dois filmes anteriores (Antes do Amanhecer e “Antes do Pôr-do-sol”- 2004). Outros personagens são inseridos na narrativa, como vemos nas sequências que ocorrem na casa de Patrick (Walter Lassally), na Costa Grega.

E diferentemente das outras duas obras, nesta vemos a interação dos protagonistas com esses outros caracteres, que vão além da figuração. Seus papéis são bastante definidos e isso fica claro nas falas e nos modos como cada um complementa as cenas de que fazem parte.

Juntos, esse casting forma um conjunto que modula aquilo o que o filme é: uma estória de duas pessoas que não são mais apenas um par, são família, amigos e todas as questões que lhes vêm. Dessas questões é que entramos na outra marca de Linklater, que são as derivas e os atos de fala dos seus personagens. Em cena, eles são esses tipos peripatéticos que, em movimento, à mesa ou no observar de um pôr-do-sol, colocam a dialética entre a vida e arte.

Esse jogo de cena que o diretor opera desde seus primeiros trabalhos, como vemos em Slacker (1991),  é um dispositivo totalmente aberto às contribuições dos atores na cena. Uma vez que a liberdade de que eles dispõem a cada take realizado é algo incontestável. A segunda sequência do longa, onde temos um plano fixo de cerca de 15 minutos com os atores dentro de um carro, é um exemplo dessa deriva conceitual de que o diretor americano lança mão.

A segunda sequência do longa tem 15 minutos com apenas um único corte de 3 segundos entre ela. É o conceito da deriva conceitual do filme.

A beleza do cinema de Linklater, e mais especificamente em “Antes da Meia-Noite”, vem não apenas da natureza do filme ser um romance, considerando o gênero. Ou da maneira afetiva com que o elenco cria o trabalho ao lado da equipe de realização, mas também da generosidade do diretor em partilhar o longa com parceiros de trabalho e com o público. Já que esse casal que ele nos apresenta é o mais honesto e palpável que podemos imaginar. Eles não nos causam estranhamento, porque são críveis e possíveis.

E essa recusa de uma falsa idealização é o maior compromisso dessa cinematografia fiel à natureza da autoria e da criação. Ela desobedece à lógica seriada, distante e megalomaníaca dos grandes estúdios ao redor do mundo. E projeta personagens dos quais certamente nos lembraremos por toda vida.

A beleza do filme é pelo fato desses personagens serem reais e críveis. Ou seja, não idealizados

Porque, sem dúvida alguma, daqui a algumas décadas ainda nos recordaremos das falas e histórias de Jesse e Céline, dos passos e lugares onde esses personagens estiveram, seja Viena, Paris ou Grécia. Assim como lembraremos da obra de diretores tão distintos em ato criativo como o é Richard Linklater.

 

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Before Midnight

Tempo de Duração: 109 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2013

Gênero: Romance, Drama

Direção: Richard Linklater

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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