Anita Malfatti e as palavras de crítica, por Ana Valeska Maia Magalhães

“Não há nada menos apropriado para

tocar numa obra de arte do que palavras de crítica,

que sempre resultam em mal-entendidos mais ou menos felizes.”

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta (carta 1).

É fato que ninguém escapa de um comentário grosseiro, leviano ou maldoso. Sabemos como é destrutiva uma língua venenosa assim como sabemos que palavras lançadas impiedosamente contra o outro podem camuflar um conteúdo invejoso. De qualquer forma, todos nós andamos pelo mundo cercados por olhares que julgam. Para um artista, este ser que escolheu ter como atividade uma exposição corriqueira de seus feitos, esta zona de perigo é especialmente intensificada.

Para quem começa a estudar o avanço do modernismo no Brasil, é inevitável o encontro com as ácidas palavras de crítica que Monteiro Lobato direcionou a Anita Malfatti após visitar a famosa exposição de 1917. Nacionalista e naturalista, com um apego excessivo às normas de composição que tinham como compromisso a relação com a realidade, Lobato exercia também a crítica de arte no jornal O Estado de São Paulo. Para ele, estar diante da produção de Anita era estar confrontado com uma grave ameaça moderna que afetava suas convicções de mundo e de arte. Ele fez o combate e usou sua arma favorita: a palavra.

Muitas vozes afirmaram que Monteiro Lobato destruiu a carreira de Anita Malfatti, argumento utilizado, inclusive, na época dos fatos pelos modernistas Mário de Andrade e Menotti Del Pichia, e que se propaga até nossos dias. Apontam para o texto virulento publicado no final de 1917, “A propósito da exposição de Malfatti”, reforçado pelo autor dois anos depois com o título “Paranóia ou mistificação”, no livro “Ideias de Jeca Tatu”.

São muitas as circunstâncias que tecem a vida de alguém. A crítica que Anita recebeu fez eco e uniu-se a tantas outras na história de vida da artista. Ela foi uma criança que aprendeu a defender-se dos olhares escondendo com panos o braço curto. Nas mesclas de fantasia e realidade que constroem as míticas familiares, sua mãe atribuía esta fatalidade a um susto ocorrido numa feira livre, quando estava grávida de Anita. Uma pedinte tocou-a com o braço aleijado. Pronto, estava gravada a sina. Anita nasceu com o mesmo defeito da pedinte.

Na adolescência preocupava-se com seu destino profissional. Numa cidade embalada pelo predomínio do patriarcado, o matrimônio era o objetivo principal de suas amigas que sonhavam com os príncipes encantados. Ela refletia sobre a profissão adequada, indagava em seus conflitos internos se tinha algum real talento para a pintura. Aprendera técnicas acadêmicas com a mãe, mas uma inquietude de querer investir efetivamente numa carreira coloria cotidianamente seu espírito. Aos 13 anos deitou-se num vão debaixo dos dormentes na linha férrea e esperou o trem passar. Disse Anita sobre este episódio de sua vida: “O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me a impressão de delírio e loucura. Vi cores, cores e mais cores riscando o espaço. Cores que consegui fixar na retina. Assim a cor e a pintura se revelaram o querer em toda minha vida” (CAMARGO, 2009, p. 30).

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Imagem: pintura de Anita Malfatti, A mulher de cabelo verde. 1915. Óleo sobre tela, 61×51 cm. Coleção Airton Queiroz – obra exposta atualmente no Espaço Cultural Airton Queiroz na Unifor.

Toda vez que vejo “A mulher de cabelo verde” associo à narrativa sobre o trem. É nessa mistura de obstinação e timidez que Anita me afeta. Com a ajuda financeira do tio George Krug, ela parte para a Alemanha aos 20 anos de idade, no ano de 1910. Em Berlim, encontra a expansão do movimento expressionista e matricula-se nas aulas de Fritz Burger e depois nas de Lovis Corinth. É tomada pela festividade das cores, numa miscelânea de experimentos pictóricos. Estava contagiada com o espírito da modernidade.

Em 1913 volta ao Brasil. Calorosamente, os familiares querem saber sobre a produção realizada em Berlim, querem logo ver as pinturas, já que o desenvolvimento da carreira de Anita era uma expectativa de todos. Os olhares que cintilavam empolgados apagaram-se diante das obras. Estava tudo aquém das expectativas. Não parecia um trabalho de quem estudara as técnicas aprimoradas da arte.

Tentando conseguir uma bolsa de estudos no exterior, realiza uma primeira exposição individual em 1914, composta por 33 obras realizadas na Alemanha. “Ela expôs as obras menos polêmicas, porque pretendia obter uma bolsa de estudos do governo, que tradicionalmente contemplava artistas de estilo acadêmico” (CAMARGO, 2009, p. 41). Esta exposição não motivou o ânimo dos visitantes, passou quase despercebida.

Outra oportunidade de viagem surgiu em sua vida, desta vez para os Estados Unidos. Contando novamente com o auxílio financeiro do tio, chega na cidade de Nova York. Nesse ambiente inovador e cosmopolita encontra a escola de Homer Boss. Um lugar transbordante de trocas, no qual vicejavam reuniões com o fluxo de várias linguagens. Teatro, música, literatura e claro, artes plásticas. Durante o período de um ano e meio que passou nos EUA conheceu artistas como Marcel Duchamp, Isadora Duncan e Mássimo Górki. Era normal nesse ambiente altamente artístico a experimentação. Anita desenhou muitos nus, inclusive usando modelos masculinos. Onde ela estava era tudo incentivado e permitido: expressar a intensidade das cores, exercitar o cubismo com os nus, distorcer, exagerar. Suas obras fundamentais foram desenvolvidas nesse período. “A boba”, “A estudante russa”, “O japonês” e “A mulher de cabelo verde” são todas dessa época.

Portanto, seria um choque inevitável retornar com esta produção ao ambiente provinciano de São Paulo, o que acontece em 1916. Ao mostrar o saldo da viagem no âmbito familiar, novamente sofreu críticas, inclusive do tio patrocinador, que viu seu investimento perdido diante das “deformações” da sobrinha. Acuada, Anita esconde seus filhos defeituosos.

Mas o tempo arrefece alguns golpes, e ela precisava agir, pois era dela a responsabilidade pelo próprio sustento. Nessa altura do contexto brasileiro existia uma valorização de teor nacionalista impulsionada por Monteiro Lobato. Baseado em suas obras literárias e no personagem do Saci, ele cria um concurso de pinturas com essa temática. Ansiosa para ser aceita em sua terra, Anita faz sua versão do Saci para o concurso. Participa, mas não é premiada. Porém, é notada por pessoas como Di Cavalcanti, que convida outras pessoas influentes para conhecer os trabalhos da pintora.

Impressionados com o que viram na visita à residência da artista, insistiram muito para que Anita realizasse uma exposição das obras executadas no exterior. Insegura, com a pele fina pela memória das pancadas anteriores, relutava. Mas, talvez esperançosa do tão sonhado reconhecimento, arrisca e abre as portas para que novamente seus estranhos frutos sejam contemplados. Foi um ato de muita coragem.

Após as palavras de crítica de Monteiro Lobato a exposição sofreu represálias dia após dia, numa tsunami de ofensas. Até a jovem Tarsila do Amaral, que visitou a exposição acompanhada do professor Pedro Alexandrino, criticou negativamente o que viu. Anita foi atacada por visitantes e jornalistas. Houve quem tentasse destruir algumas pinturas com golpes de bengala. Outros riam, deixavam bilhetes com insultos, tudo com muito deboche.

Seria uma experiência difícil para qualquer pessoa. A experiência de Anita, porém, impulsionou o movimento do modernismo no Brasil e transformou-a numa precursora. Levou Mário de Andrade e outros artistas a elaborarem defesas e aberturas para o novo. Aguçou o olhar de muitos para as pinturas “defeituosas” e abriu espaço para o desenvolvimento do movimento modernista brasileiro.

Portanto, há várias formas de contar essa história. A minha, talvez por identificação, é a que vê a menina angustiada na linha do trem, num impasse de vida e morte, e que ousou acreditar que outro mundo é possível. É para alguém que teve a coragem de tentar ser livre em tempos repressores que olho ao mirar as entrelinhas da mulher de cabelo verde.

Referências

CAMARGO, Ani Perri. Anita Malfatti: a festa da cor. São Paulo: Editora Terceiro Nome, 2009.

CHIARELLI, Tadeu. Um Jeca nos Vernissages. São Paulo: Edusp, 1995.

RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta e A canção de amor e de morte do poeta-estandarte Cristvão Rilke. São Paulo: Globo, 2001.

Ana Valeska Maia Magalhães

Ana Valeska Maia Magalhães

Advogada, graduada em Artes Visuais, graduanda em Psicologia, aluna da Escola de Psicoterapia Psicanalítica de Fortaleza e Mestre em Políticas Públicas e Sociedade pela UECE. Autora dos livros “Pulsão Irrefreável: arte contemporânea no feminino” e “Tessituras: em contos, crônicas, poesias e imagens”.

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