Algumas oitivas sobre hipocrisia política, acompanhadas de pequeno excurso sobre improváveis certezas e verdades mentirosas do “fazer-de-contas”da vida republicana, por Paulo Elpídio de Menezes Neto

A maior corrupção se acha onde a maior pobreza está ao lado da maior riqueza”.

Que resta, pois? Uma democracia sem experiência, desunida, corrompida e egoísta. […] A catástrofe é inevitável”.

José Bonifácio in “Projetos para o Brasil”.

Um velho jornalista cearense, homem de pouca cultura porém favorecido pela sabedoria, e senhor de proverbial esperteza, temia que, chegada a modernidade aos cearenses, pusesse em risco antigos e prezados hábitos provincianos. Receava que, levado por assomo incontrolável ao arrancar um pé de coentro na latada do quintal de sua casa, viesse a deparar-se com ruidosa manifestação à sua porta, em defesa do meio-ambiente. Por aquele tempo que não vai longe, desrespeitar a flora, arrancando folhas, caules e raízes, sem autorização competente dos órgãos encarregados da preservação da natureza, já configurava crime com severa cominação de pena, mas não caracterizava, ainda, um ato político.

Os tempos são outros, as coisas e os homens mudaram, e não foi pouco. José Bonifácio, em seus escritos sobre o Brasil (seção Brasil e Política) ordenados como “Projetos para o Brasil”, pela historiadora Mirian Dollmikoff (Companhia dos Letras, Rio de Janeiro, 1998) acreditava que “as nações pouco cultas, mas vivas e impetuosas como a nossa, detestam novidades de prática, mas abraçam logo todas as especulativas, sejam quais forem”. Não se enganava o Patriarca nessas conjecturas, como não se equivocou, alias, em muitas outras severas considerações sobre o Brasil e os brasileiros.

Deitadas estas linhas iniciais (quase dizia, com gastos vezos gutenberguianos, sobre o papel) no monitor que acolhe e digere minhas ingênuas imprecações e perplexidades cidadãs, dei-me conta que elegera tema controvertido e impróprio para quem, como nós brasileiros, pomos os pés em um novo ano, cercados de maus presságios e carentes de otimismo e esperança. Nesta época do ano, as pessoas decidem por serem felizes a qualquer preço, ainda que por exercício de catarse – e buscam confirmar esse precário estado de espírito como forma de libertação da realidade — de uma realidade “real” que não trazemos nos olhos e que não queremos reconhecer e aceitar. Esses impulsos desiderativos são parte, convenhamos, do nosso kit de sobrevivência: a ele nos agarramos a exemplo do Velho Fidalgo que, apesar das ponderações de Sancho, revestia a realidade que o atormentava com o manto diáfano da fantasia das suas boas obras cavaleirescas.

De simples expectador a participante mais ou menos engajado

Tudo mudou com a expansão das redes sociais, mídia alternativa que conferiu ao homem comum, simples expectador, o poder de reconstruir a realidade a partir de seus íntimos desejos ou por força de engajamento de fé e a disciplina das persignações ideológicas. Umberto Eco afirmou que se criara nas teias da Internet uma nova forma de imbecilidade humana. Seja como for, nada é, de fato, como dantes. A deformação da realidade e a intolerância (a “proof news”, argumento usado para validar uma verdade, e as “fake news”, a dissimulação da verdade através da reinvenção da realidade) são os ingredientes poderosos que captaram as nossa mentes e a nossa capacidade de enxergar e julgar o que percebemos, na medida em que “enxergamos” apenas o que pretendemos ver.

O mundo viveu esse acentuado processo de mimetismo psicológico – e nós, brasileiros, o abraçamos com aquele “ímpeto especulativo das nações pouco cultas”, a que se referia José Bonifácio.

Qualquer assertiva lançada de público ou entre amigos, opinião, argumento ou simples discrepância nos dissensos eventuais, encontrará, de imediato, o seu contrário, a replica no tom de desafio guerreiro. Reação natural, dir-se-ia, exercício saudável de lógica e dialética, índice de pluralidade ideológica, o que seria verdadeiro, não fosse a condenação imediata do interlocutor à classificação sem perdão de engajamento condenatório.

O “nós contra eles”: a cavilação e a hipocrisia na política

Ganhou foros de judicatura implacável o “nós contra eles”, direita contra esquerda, como se conhecêssemos o que de fato uma e outra pleiteiam e pelo que lutam; o público e o privado, com o Estado de permeio; a verdade popular ( “a voz do povo é a voz de Deus”…) contra as engrenagens do “sistema”. Mais recentemente, “coxinhas” contra “mortadelas”, a cavilosa oposição entre o combate a corrupção e seus efeitos “funestos”sobre a economia; o anátema final contra o combate à corrupção como recurso a estratégias dissimuladas de privaçnao do exercício da política. A defesa da manutenção da raça negra em estado de pureza contra as tentativas de miscigenação impostas pelas elites, no intuit de degrader esse rico patrimônio étnico; a reserva de vagas nas universidades como estratégia de socialização de oportunidades educacionais, e a meritocracia na conquista do saber, denunciada como expediente fascista. A proibição da fabricação de “pâté-de-foie-gras”, como prática importada da cozinha burguesa europeia e dos atrozes padecimentos infligidos aos gansos; agora, a proibição da carne às segundas-feiras (o rito católico, impunha às sextas-feiras, segundo antiga tradição mosaica); na luta pela sobrevivência da Previdência Social a contraposição entre funcionários públicos e trabalhadores privados, de dispêndios públicos descontrolados e da renúnca fiscal por “razões de Estado”e de governo, à falência da seguridade; universidades que abrem mão de sua autonomia e apoiam candidatos de partidos à presidência da república, esquecidas do quanto significa a sua independência para a produção de conhecimento e a sua transferência; a liberação da arte como forma de expressão dos conflitos sociais, morais e sexuais, sem consideração pelos valores estéticos da criação artística; a proibição da vaquejada pela piedade que causa o sofrimento dos garrotes e bovinos crescidos, esquecidos que deles nos alimentamos, após os abatermos; a sublevação dos réus de “colarinho branco” contra o sistema judiciário, já que aos desvalidos de colarinhos não tocam as exceções pretendidas; a verbalização incontida dos magistrados sobre questões que serão por eles julgadas; a intimidação de parlamentares em troca de votos, ainda que a prática possa parecer chantagem, por essa razão batizada como “ações de governo”…

A cada uma dessas contraposições factuais corresponde uma classificação condenatória, inapelável: não basta denunciar o opositor caído em pecado de heresia por grave dissensão de opinião como retrógrado, reacionário, liberal, neoliberal, fascista ou comunista – há que desmoralizá-lo e os seus propósitos, ideias e argumentos. Não que se pretenda escamotear a necessidade de que devam ser tratadas e discutidas, per se, como, alias, todas as controvérsias devem merecer essa atenção. Mas que não seja sob o guante maniquísta do bem e do mal, do “nós” e do “eles”, do “progressista” e do “reacionário”, das mentes esclarecidas a enfrentar a obtusidade dos “alienados”de toda ordem.

Por que, então, nos preocuparmos com esses desvios de conduta ideológica? Todo mundo, a rigor, está mentindo. Swift já sugerira em sua “Arte da Mentira Política” (Amsterdam,1733), esticando o fio conductor de Maquiavel: “os ministros enganam o povo para governá-lo, o povo faz correr boatos caluniosos e rumores mentirosos para se desembaraçar deles. Afinal, o segredo da mentira, para que as “fake news” ganhem contorno de realidade e possam sugestionar a opinião política está em não ultrapassar os limites da verossimilhança: “esta mentira é verdade?”.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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