A história se repete?

Tivemos manifestações de rua na campanha das diretas. A economia ia mal. Partidos, líderes, sindicatos e organizações estudantis convocavam o povo, com o apoio de ativistas de tempo integral.

Contra o Collor as manifestações tinham como alvo a corrupção. Novamente a economia incomodava. Personalidades influentes, organizações políticas, com o apoio unânime da imprensa e ativista profissionais convocavam às manifestações. Dizia-se: “sem ética não dá”. Não era golpismo, embora tenhamos chegado ao impeachment, ainda que o processo devesse ter sido extinto por perda de objeto, depois da renúncia do presidente.

As jornadas de junho refletiram indignação contra a roubalheira nas obras da copa do mundo, associadas a todas as insatisfações da sociedade, embora não houvesse desemprego ou inflação elevada, para os padrões brasileiros. Parte dos manifestantes era formada pela boiada cidadã, tangida pelos vaqueiros do rebanho político, como os blak bloc. Estes caracterizaram-se pela violência e vandalismo. O Movimento Passe Livre também teve algum papel, desfraldando a bandeira do almoço sem conta, levando um rebanho às manifestações.

Novamente o povo vai às ruas, neste ano de 2015. Não atende ao apelo de líderes prestigiosos; não é guiado por vaqueiros da boiada cidadã; nem pelo comando de partidos ou entidades da sociedade civil aparelhada. Não se trata de reunir um conjunto de insatisfações difusas. Também não se trata da expressão da impulsividade juvenil, de um carnaval cívico, de apresentação de artistas ao embalo de drogas, pois as manifestações estão cheias de cabeças grisalhas. Não se trata de vandalismo. Não se arranca uma flor de um jardim. Gente responsável comparece com toda a família, inclusive levando criança de colo. Pelegos não estão presentes, nem monstros sagrados artificiais. Presentes estão a responsabilidade, a consciência cívica e a maturidade. Não são manifestações mercenárias, não havendo nelas ativista remunerado. Ainda uma diferença: as atuais manifestações são convocadas para os domingos, por gente que trabalha, estuda e não pretende causar transtorno a terceiros inocentes.

A história se repete? Enumeramos as diferenças. Lembremos a repetição. Repúdio à corrupção e aos governantes identificados com o objeto de protesto é o foco das manifestações de hoje e de ontem. A presença da sociedade civil desorganizada, não domesticada, não aparelhada, por isso mais espontânea, representativa e autêntica é outro aspecto repetido. Estas são características da maioria silenciosa, que é silenciosa demais, só saindo às ruas quando a situação chega a extremos.

Será tragédia ou farsa a repetição de alguns aspectos das diferentes manifestações?

Não. Tragédia é a repetição da corrupção; a falta de representação política, motivo do povo ir às ruas. Não deve ser considerado uma tragédia que o povo livre se manifeste, sem o jugo da sociedade civil aparelhada e dos vaqueiros da boiada cidadã. Nem tragédia nem farsa. Citar Marx pode exalar um certo charme entre intelectuais ungidos, nada mais.

Rui Martinho

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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