A batalha dos carneiros

Dom Quixote de la Mancha é um clássico da literatura mundial, a obra que deu início ao estilo do romance moderno escrita pelo espanhol Miguel de Cervantes. O protagonista é um fidalgo, com 50 anos de idade, que aparentemente perdeu a razão em função da leitura de muitos romances de cavalaria, típicos da época, pretendendo imitar seus heróis preferidos. Para alguns intérpretes de Cervantes, a loucura de Dom Quixote residiria num certo anacronismo, por haver se enganado de século: um cavaleiro medieval em pleno início da Idade Moderna. Seria mesmo?

Outro personagem importante no romance é o escudeiro Sancho Pança, vizinho do fidalgo, que aceita o convite que lhe fora feito em troca da promessa de governar a Ilha Barataria. Uma passagem magistral do livro narra de como Sancho tomou posse de sua ilha e do modo como principiou a governa-la. Na cerimônia de posse, ele fitou umas grandes e numerosas letras que ornavam a parede em frente à sua cadeira. Como não sabia ler, perguntou ao mordomo o que eram as pinturas naquela parede. Esse respondeu que era a saudação que demarcava a posse de Dom Sancho Pança como governador da ilha. E o governador, surpreso, pergunta a quem chamam de Dom. “A Vossa Senhoria”, respondeu o mordomo. Mas Pança reagiu: “Ficai sabendo que eu não tenho Dom. Chamo-me Sancho Pança, sem mais nada. Parece que nesta ilha deve haver mais dons do que pedras”. Em seguida o capítulo discorre com moradores da ilha tendo ter com o governador clamando para que ela faça justiça nas tensões presentes nas relações sociais dos membros daquela população. E Pança surpreende a todos com o seu tirocínio, seu sentido de justiça, com sua “virtù”.

Outra narração, muito bem trabalhada por Cervantes, trata da batalha contra o exército de carneiros. É um dos textos constitutivos do romance. O cavaleiro, com todo o seu sonho, criou paisagens e personagens. Assim, foi ao encontro de dois exércitos de carneiros. A descrição que faz de ambos os exércitos e sua convicção acabam por convencer Sancho de que se trata de uma luta entre o grande imperador Alifanfarón, da Taprobana, e Pentapolín del Arremangado Brazo, que, como cristão, não desejava entregar sua filha ao imperador de origem moura. O encontro do cavaleiro com os dois rebanhos é um dos momentos que melhor revela toda a capacidade inventiva do cavaleiro, embriagado pelas leituras cavaleirescas. Apesar dos alertas de Sancho, Dom Quixote arremete contra os carneiros matando alguns animais; em contrapartida, acaba sendo fortemente atacado pelos donos dos carneiros e o resultado de sua batalha é a obtenção do grandioso epíteto Cavaleiro da Triste Figura”, sugerido pelo escudeiro no capítulo seguinte a partir da péssima feição de Dom Quixote. Nessa luta, uma vez mais, Sancho Pança está ao seu lado, todavia exclama: “Não há dúvida que o patrão está doído varrido. Não vê que esses tais conspiradores não passam de uns tímidos carneiros?”.

Uma pergunta que decorre desse episódio é: quem estaria com a razão? Pança que vê naqueles dois grupos apenas tímidos carneiros, ou Quixote, com sua perspectiva mais aguçada, é capaz de decifrar e perceber que sob aquelas peles de carneiros estão escondidos verdadeiros lobos aptos por devorar e tomar posse do reino?

Dizem a que a arte imita a vida. Aqui no Brasil, a manipulação da interpretação dos acontecimentos políticos produzidos nesses últimos dias veiculados nos hegemônicos meios de comunicação social vêm demonstrar o fato de aqueles que historicamente estão com o poder da mídia em suas mãos não se tratarem de tímidos carneiros. Pelo contrário, estão com todo o seu rebanho, articulando ferozmente, prontos a despedir Quixote e Pança, sem o menor pudor, para continuarem mantendo-se onde sempre estiveram desde a colonização do Brasil: na Casa Grande.

Se Quixote representa o sonho e Pança, por sua vez, a encarnação do bom senso, tarefa importante nessa hora cabe à sociedade civil, com suas representações instituídas, manterem-se articuladas junto aos representantes políticos e aos poderes da República para garantirem a continuidade harmoniosa da condução democrática em nosso país, por meio do bom senso, do diálogo e da determinação, e seguirmos construindo a laboriosa tarefa de fazer uma nação que fomente, respeite e garanta a liberdade e a igualdade entre todos os seus cidadãos.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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