007-Casino Royale: E as diversas dimensões do herói

Na primeira década dos anos 2000, as estórias do agente secreto 007 adaptadas para o cinema passaram por uma vigorosa reconfiguração. Se a era dos filmes estrelados por Pierce Brosnan foi marcada por uma linha de longas desprovidos de alguma complexidade em conteúdo e forma fílmicas, isso mudou quando em 2006 Martin Campbell apresentou seu impecável 007-Casino Royale (2006).

Na trama, James Bond (Daniel Craig) recebe sua licença para matar e embarca em uma arriscada primeira missão. O termo “arriscar” será de grande importância no trato da narrativa, seja nos aspectos da forma ou do conteúdo fílmico. E quando falamos do conteúdo, estamos lidando com os aspectos conceituais do trabalho em questão. E falar de conceito em Casino Royale é entender que a partir deste filme, Bond será desenhado sob o traço de um personagem totalmente crível.

Isso nos pressupõe inicialmente que sua representação se dará numa atmosfera absolutamente naturalista. Ou seja, Bond é o personagem clássico das histórias de Ian Fleming, mas aqui apresentado através de uma nova abordagem. A partir de novas dimensões. Uma delas é exatamente essa: a de Bond como uma figura possível.

O prólogo e a sequência de abertura do longa são a mais perfeita representação disso. Já que a forma com que James lida com seus inimigos dispensará qualquer termo de cordialidade. Ele agora é o personagem que mata os oponentes afogados numa pia de banheiro sujo ou os perseguem até que não reste nenhum vivo a contar história. Ele é altamente mortal e sua superior, M (Judi Dench) tem imensa dificuldade em controla-lo.

É claro que esses são dados que estão no filme, mas que precisam ser analisados sob um vezo contextual. Uma vez que o longa não se coloca dentro da cronologia da cinematografia de gênero contemporânea por si própria. Ele faz parte de uma produção de filmes de ação realizados na primeira década dos anos 2000 com traços bem definidos. É como pensarmos em longas como “A Identidade Bourne” (2002) e mais especificamente “A Supremacia Bourne” (2004).

Juntos, esses trabalhos na verdade inauguram paradigmas de forma e linguagem fílmicas em tudo aquilo o que antes havia sido idealizado nos romances escritos sobre as estórias desses espiões. Ou mesmo sobre os longas realizados em meados das décadas de 1960 e 1970 como Bullitt (1968), “Operação França” (1971) ou “Serpico” (1973). Esses heróis são crus, dispõem de poucos recursos e inserem-se em narrativas enxutas em termos de construção fílmica. E no caso de Bond, chegamos numa outra dimensão ligada à gênese do herói que se constrói diante dos nossos olhos. E como Casino Royale nos conta como Bond se torna o agente 007, vemos seu desenvolvimento gradual sequência a sequência.

Ou seja, aqui, James parece estar sempre um passo atrás de seus vilões. Eles são mais rápidos e astutos que Bond. Le Chifre, o algoz de Casino Royale interpretado pelo brilhante Mads Milkensen, passa uma imagem de ser mais sofisticado que nosso herói. E esse é um dado chave que nos ajuda a entender que não estamos diante de um herói idealizado tal qual foram os personagens interpretados por Sean Conery (1962-1967/1971/1983) ou Roger Moore (1973-1985).

O Bond vivido por Craig está em construção, aberto e vulnerável. Ele não usa gadgets ou terno, ele sangra e as únicas coisas com as quais pode contar são as armas, os carros e sua própria força. Os filmes de espiões assim como toda obra de ação ou de gênero correlato estarão em sua maioria propensas à esfera do entretenimento. Entretanto, é importante entendermos que há uma linha que separa obras revestidas de superficialidade daquelas que não abrem mão de se conduzir por tramas mais complexificiadas, a seus tempo.

Em Casino Royale, vemos um Bond em construção, onde sua gênese está em pleno desenvolvimento

Porque se analisamos 007 contra GoldenEye (1995) e Casino Royale (2006), ambos dirigidos por Martin Campbell, o quanto o diretor percebeu que estes filmes não descendiam de um mesmo contexto. Já que enquanto o longa dos anos 1990 nos dava um Bond caricatural, o 007 da segunda metade dos anos 2000 havia de ser, como o é, mais complexo e estruturado em função de uma nova ordem a qual os longas de ação passam a se inserir, para a honra e glória de todos que apreciam o cinema de gênero.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Casino Royale

Tempo de Duração: 144 minutos

Ano de Lançamento (EUA): 2006

Gênero: Ação, Thriller

Direção: Martin Campbell

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Jornalista, graduado em Comunicação Social (Jornalismo), Realizador em Cinema e Audiovisual pela Escola Pública de Audiovisual - Vila das Artes e colunista do Sala de Cinema no site Segunda Opinião.

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